segunda-feira, 2 de julho de 2007

torcedor alienado futebol clube

o texto comentado de hoje:

Bem, amigos
Enquadrar tudo o que eu vivo no meu stress diário não é covardia, é sinceridade. Algum tempo atrás escrevi que o futebol era o demônio do Brasil (e do mundo todo...) mas hoje eu tenho que admitir, eu estava certa!
É óbvio que a culpa não é do futebol e sim do sistema alienante que vivemos, mas convenhamos, esse sistema tem armas de destruição em massa infalíveis, e o futebol é a menina dos olhos dessa guerra.
Como tudo na vida, ele não foge a regra de ser um produto feito em duas dimensões, um modelo “econômico” para a grande massa, e um modelo “master” feito para a alta burguesia. E, como sabemos, quem faz esses modelos são membros da burguesia que tem a necessidade de se afirmar como superior em tudo e por isso imprime na sociedade total ideais que só podem ser usufruídos por ela... Aquele velho blá blá que já estamos cansados de ouvir.
Como isso funciona no futebol? Bom, se você nunca refletiu sobre esse aspecto do nosso sistema eu vou dizer as minhas conclusões parciais: O futebol hoje, tem duas ramificações. Ambas derivam do mesmo tripé: campo, jogo e times. Mas a partir disso temos os dois diferentes futebóis. O primeiro que é o de massa, simples e tradicionalista (ambos são conservadores, mas só o de massa e tradicionalista). Propaga-se pelos veículos baratos e acessíveis, o rádio e o jornal de esportes. Aqui vale lembrar que existem hoje (e não existiam antes) jornais diários apenas sobre futebol a preços acessíveis. Pelo rádio podemos ouvir as notícias e acompanhar as partidas, no jornal sabemos das mil contratações, escalações e acordos do mundo futebolístico. Temos também a televisão aberta que dá uma canja, mas não aprofunda o assunto. E assim configura-se o universo que move a paixão nas classes baixas, o esporte do país, a expressão máxima da nacionalidade, onde não há classes, onde todo brasileiro se identifica e pode se expressar...
Porém, paralelamente a isso existe um mundo alternativo e limitado (pelo preço) que move o futebol, o que eu chamo de: a intelectualidade futebolística brasilianista. Na televisão fechada e na internet encontramos sites e mais sites, canais e mais canais onde esse assunto é o rei absoluto. Nesses espaços, todo tipo de acordo comercial pode ser firmado, você compra pacotes inteiros que te permitem assistir todo o campeonato da sua cidade e do mundo em zilhões de parcelas ao longo do ano. Além disso, se você tiver bastante tempo livre, poderá ficar o dia todo acessando a internet e acompanhando as últimas decisões que foram tomadas pelos dirigentes do seu timaço. Pode também participar de enquetes e muitos outros artifícios mirabolantes para entreter o fanático.
O que eu quero dizer é que existe uma filosofia do futebol que nasce nesses meios elitistas e que não chega com força total no gosto do povo. Os meninos das classes altas vestem camisa de times europeus apenas porque a média de preço da camisa é de duzentos reais? Não, porque eles também não entendem mais o Brasil, país do futebol, como um país do Flamengo, Vasco e outros, mas como o país exportador de talentos...
E o que significa isso? Significa que não importa qual o meio que se usa para distanciar proletariado e burguesia, mas que seja eficaz! O futebol internacional ocupa as mentes desses filhinhos de papai ao mesmo tempo que o programa “bem, amigos” ocupa as noites das famílias burguesas, o Galvão Bueno não é apenas o homem da Globo no futebol, ele é um símbolo máximo que é visto pelo povo esporadicamente nos grandes jogos e diariamente pelas classes dominantes como um filosofo do futebol.
Vivemos a farsa do que é o futebol, mas quem entende do esporte afinal? Quem sabe o que os técnicos pensam, como será o próximo esquema tático entre outras informações que eu nem sei citar como exemplo porque estão completamente proibidas dentro meu universo feminino de comprar presente para o dia das mães (e porque eu não sou tão alienada assim)?
Tentando ser bem sucinta, eu diria que o futebol da elite define o que vai estar no gosto do povo amanhã. Faz dos criadores dessa dinâmica filósofos que filosofam para um grupo seleto de pais de família que anseiam por mais diferenciação social e para seus filhinhos, sobra o sonho de ser um Kaká ou um Galvão Bueno. Mas na verdade eles serão apenas mais papais assistindo “bem, amigos” com pouco tempo para se dedicar a entender o que se passa no programa do dia porque tem que trabalhar cedo amanhã para poder pagar a televisão a cabo no fim do mês.
Claro que para os meninos das classes baixas só resta sonhar em ser descoberto por um olheiro e virar o novo “Fenômeno”, a seus pais só resta trabalhar e ler o jornal de esportes dentro do ônibus no engarrafamento e escrotizar com o colega de trabalho, que torce pelo time rival, na hora do almoço... É, se ele quiser pode sonhar que o filho vai ser o novo “Fenômeno”, mas geralmente ele não faz isso, sonhos são coisas de jovens.
Mas o que importa mesmo é que essa é a paixão nacional!



Não é só porque eu voltei do bar pensando no futebol, veja bem. Como primeiro capítulo desta crônica crítica, havia decidido pegar no pé de algum colunista famoso... Nada menos pessoal do que isso. Não que seja pessoal o que me proponho a fazer agora.
Suponha menos ainda que eu, à encardida meia noite de domingo (fede cigarro), estaria sentado em frente à tela para defender o Galvão Bueno das garras maléficas do militante furioso.
E não, ainda não é o momento de revelar aos esquerdistas de que na verdade eu sou o sobrinho neto do Adam Smith. Deixo isso para quando chegar à presidência.
A escolha do tema partiu, primeiramente, da minha falta de opção, diante da excelência dos textos que tenho lido na internet. Estão todos de parabéns, mas saibam que essa rodada vai ser de esquente. Vocês ainda vão se ver comigo!
Somada a isso, a ousadia desta pessoa, que deixou que este texto flutuasse gentilmente no meu HD, me deixou totalmente perplexo. Foi quase como se quisesse me atingir.
Ainda assim, insisto, nada pessoal.
Afinal de contas, eu poderia ser ingênuo e me infiltrar num debate ferrenho onde eu me estapearia com gordinhos barbudos do PSTU, todos preparados com correntes e pastores alemães, fundamentados que são na arte de serem mal humorados.
Mas não, minhas reflexões de hoje não seguirão o tema do questionamento, mas da contemplação. Só por hoje vou ser complacente com os erros de continuidade de uma redação que começa em algum lugar e termina em outro. Tudo em segredo.
Analisemos, pois, o motivo pelo qual eu não deveria assistir a uma partida de futebol. “Você não”! “Você é filhinho de papai!” “Assim não vale!”.
Com os perdões, analisemos o motivo pelo qual um nobre cidadão - não um reles filho da puta como eu – não poderia fazê-lo.
Quanto a ser instrumento de alienação: O que não é? Se o conceito de entretenimento está diretamente atrelado ao sentido de alienar direitos do cidadão, prepare sua pipoca, pois este é o início de uma discussão mais ferrenha do que aquela do ovo e da galinha. Não confunda. Entretenimento também é direito.
“Pão e circo!”, alguém vai dizer. Ponham o herege na cruz. Sinto em informar-lhes que o campeonato brasileiro não acontece por iniciativa governamental. Os clubes são nada mais que empresas, aliás, com as mesmas características fundamentais de quaisquer empresas brasileiras: são desonestas e têm menos capital que as empresas estrangeiras. “Ah tio, por isso o Juninho Pernambucano não joga mais no Vasco?” Sim, exatamente por isso. Mas eu continuo fã do cara e é por isso que comprei a camisa do Lyon, pelo mesmo preço que compraria a do Vasco. Com a diferença de ser mais bonita, coisa que gosto nas camisas que compro.
“Ainda assim, tudo não passa de uma manipulação feita pelos tentáculos da Globo e de seu arauto, o Galvão Bueno. Os cidadãos devem se privar de qualquer entretenimento que envolva lucros para a burguesia, dedicando-se somente a jornais de sindicato e organizações de greve”. Convenhamos, ninguém é assim. A própria greve, por acaso aqui citada, já é tratada por muitos como banais férias. E a culpa não é do futebol.
Mas assim chegamos ao assunto da televisão fechada.
Eu até simpatizo com a idéia de uma grande rede de comunicação nos apontando para onde ir, o que consumir, e separando níveis de profundidade de informação por níveis sócio-econômicos. Simpatizo, pois daria um belo filme! Vamos por partes. Em primeiro lugar, é imperativo que se analise o fato da rede Globo ter concorrência. Não que ela não ganhe da concorrência, mas ela existe. O canal Bandeirantes, por exemplo, não tem o mesmo aparato da Globo nesse mundo sórdido de televisão a cabo, e não pode exercer este tipo de segregação. O que eles fazem então? Ora, transmitem os jogos na TV aberta, no horário que a Globo tem que passar a sessão da tarde para não perder o caráter eclético: com uma programação masculina demais eles podem afugentar anunciantes de produtos femininos – daí eles fazerem canais de conteúdo específico, o público do canal fica mais homogêneo e facilita a pesquisa de mídia. “Machista! Não é só homem que gosta de futebol!” Não é, mas é a maioria. Não estou querendo, com isso, dizer que futebol é coisa pra meninos e que meninas assistem a novelas, foi uma mera ilustração do que ocorre na compra de material televisivo: se um dia você vir um anúncio de creme hidratante no intervalo de uma partida de futebol, não pense em democratização – pense em burrice.
Voltando ao Galvão Bueno. É verdade, sim, que existem ícones máximos do jornalismo esportivo, mas o Galvão não está nessa lista. Estão nela, é verdade, muitos dos jornalistas do meio ainda inacessível a 87% da população brasileira. Mas não nos precipitemos. Muito antes da TV a cabo, esses mesmos jornalistas ganhavam prestígio e credibilidade em meios bastante acessíveis, principalmente no rádio, onde até hoje o assunto é abordado com profundidade e com os mesmos melhores jornalistas.
Aqui vale lembrar que o jornal dos esportes tem 40 anos. Quarenta! Sim, “antes” existia um jornal dedicado a esportes. Principalmente ao futebol.
Assim, as discussões são as mesmas para tudo quanto é canto. As diferenças econômicas aparecem mais na qualidade dos campos, das chuteiras e de uniformes de peladeiros, no tal do futebol society que realmente surgiu na elite e ainda não alcançou o “povo”. No mais, posso sentar ali no bar do Raimundo e sustentar com ele qualquer conversa sobre o meio futebolístico, seja nacional ou internacional: geralmente ele sabe mais que eu. Mas isso deve ser culpa da desocupação do pobre infeliz que trabalha o dia inteiro.
Vou tentar terminar mais cedo, precavido que sou. Sei que no ponto onde cheguei já serei alvejado por frases feitas, lições de moral e manifestações de desprezo.
Com toda a inflamação que passei, acabei esquecendo de ser imparcial. Com as desculpas, abro este espaço para discordâncias e comentários sobre o assunto, eles vão me acrescentar em muito!
Encerro esta reflexão lembrando certos benefícios do esporte, afora a alienação que promove em cima da população. Mas não vou usar personagens bonitos como demônios, dragões e cavaleiros com estandartes. Existe, sim, muito desequilíbrio nas funções vitais do meio televisivo. Fazem isso pelo fato de uma programação de entretenimento dar mais audiência que programas educativos ou politizadores. E estão absolutamente errados em fazê-lo! Não têm esse direito! Mas vale lembrar, também, que esporte não é só um programa que passa na televisão. Pensando na atividade esportiva, prefiro a ilusão de se tornar um novo “fenômeno” à de se tornar um novo beira-mar. Isso porque, com alguma sorte e muita dedicação, ou com apoio e investimentos sérios do governo, esse moleque que queria jogar bola pode se tornar um professor de educação física, ou deixar o esporte pra lá e ser médico. Parece utópico, não parece? É utópico. Mas chega, finalmente, ao ponto onde eu queria. Temos um novo culpado: e não é meu esporte favorito. o/

3 comentários:

artmade.project disse...

Sensacional!
vou ser sincero: não li tudo! mas os 80% que eu acabei de ler foram "verdadeiros e chatos", no melhor dos sentidos!
abraços

caiecker disse...

haha, bem abordado.
ps: ao ler o teu texto me vem a cabeça o quanto o meu dominio da lingua tera diminuido apos esses anos fora e sem pratica. mas enfim, boa redacao!

caiecker disse...

novo blog caiecker.blogspot.com
t coloquei como link la blz?